Certo dia uma garota de carne e osso foi para a Cidade de Madeira à serviço. Tudo lá era de madeira, as casas, os postes, as ruas e até mesmo as pessoas. Essa garota trabalhava em uma empresa especializada em aparelhos de segurança residencial. A garota foi até o endereço marcado em sua agenda, tocou a campainha de madeira e aguardou.
— Boa tarde! – Disse o homenzinho de madeira — no que posso ajudar?
— Olá, eu sou a moça da empresa de segurança residencial que o senhor pediu. Poderíamos entrar para o senhor ver o que mais lhe agrada?
— Podemos tratar disso aqui mesmo. Não gosto de ninguém bisbilhotando minha casa. Eu quero homens fortemente armados cercando minha residência.
— Desculpe, mas não podemos usar armas de fogo a não ser que seja com alguém muito especial ou que tenha sofrido alguma ameaça. O senhor se enquadra em alguma dessas condições?
— Viver nessa maldita cidade já é uma grande ameaça, mas creio não ser ninguém tão importante assim para a senhorita! Então eu quero laser.
— Desculpe senhor, mas o laser é tão altamente destrutivo quanto às armas de fogo. A regra aplicada é a mesma.
— Que diabos a senhorita e sua empresa têm a me oferecer então? Vão colocar cacos de garrafas quebradas no meu muro? Por favor, né! Com licença mocinha, mas tenho mais o que fazer.
— Espere! O senhor não vai nem querer olhar o que tenho a oferecer?
— Tem dois minutos.
— Temos cercas elétricas de alta tecnologia, alarmes e cães de guarda muito eficazes e se mesmo assim o senhor se sentir inseguro podemos instalar câmeras e monitorá-las 24 horas.
— Não foi muito convincente, mas quero que instale tudo. A cerca, as câmeras, o alarme e os cães. Até logo senhorita.
Depois de o senhorzinho bater a porta na cara da moça ela foi para a segunda casa marcada. E foi a mesma coisa. As pessoas queriam armas muito poderosas para apenas uma segurança residencial e ela teve que se esforçar muito durante o dia, mas conseguiu que quase todas as casas aceitassem seus produtos.
Após um dia da instalação várias ligações direcionadas à “mocinha de carne que me atendeu outro dia” foram recebidas na empresa. Muitas reclamações dizendo que os produtos não eram eficazes e que o mesmo caos continuava. A mocinha retornou então à cidade.
Tocou a campainha e aguardou.
— Ah, é você. Sabia que aqueles seus cães não perseguem gente de madeira? E que as cercas elétricas não funciona contra gente de madeira? E que roubaram meu sistema de alarme e até minhas câmeras? O que me diz disso? Minha cidade não parece tão ameaçadora agora?
— Me desculpe senhor. Era tudo o que tínhamos a oferecer. Breve reembolsaremos seu dinheiro. Obrigado e mais uma vez peço-lhe desculpas.
Depois de muitos perdões pedidos e reclamações ouvidas, a mocinha resolveu passar um dia na cidade e ver como eram as coisas por lá.
Se surpreendeu com a falta de respeito e educação daquela cidade. Todos tinham um vocabulário porco e era muito comum presenciar assaltos a plena luz do dia. Ela mesma foi assaltada três vezes. Até seus sapatos foram levados.
Ela ficou tão abismada e resolveu solucionar o problema daquela cidade. Foi falar com o prefeito.
— Ah, esses maus educados. Não merecem um segundo se quer de minha atenção. Se morrerem será menos trabalho para mim. Há anos eu sou o prefeito e os habitantes até desistiram das eleições, pois ninguém dá jeito nessa cidade. Eu realmente não me importo com eles. E se lhe serve de conselho, quanto menos andar por aqui melhor para você. Se me dá licença, é hora de eu comer minhas rosquinhas.
Após andar muito por sua cidade viu que não havia muita diferença nas pessoas entre a Cidade de Madeira e a dela. Todos tinham braços, pernas e cabeça. Mas o que será que tinham por dentro? Depois de uma busca na internet viu que não tinham nada. E foi assim que teve a idéia para resolver os problemas daquela cidade. Conversou alguns minutos com seu chefe e retornou a cidade com novas ofertas.
Novamente tocou a campainha e aguardou.
— Ah, você novamente. Não quero nada que venha da sua empresinha de merda. Adeus.
— Tenho novas propostas que talvez interessem ao senhor. Por favor, ouça-me.
— Diga.
— Trago-lhe hoje algo que ninguém na sua cidade jamais teve e que pode resolver todos os problemas por aqui ou grande parte deles.
— Continue.
— Se chama coração. E é algo que nós, pessoas de carne e osso, usamos para ter sentimentos. A mudança é instantânea, mas para que haja resultados notáveis na cidade toda, todas as pessoas tem que ter um.
— E a senhora pretende que eu compre para todos? Se for isso, pode ir dando meia volta.
— Não. Eu só gostaria que o senhor experimentasse um e me dissesse como se sente.
E depois de muita insistência o senhorzinho provou um coração e disse se sentir muito bem. Como se já não houvesse problema. Juntos os dois foram falar com o prefeito que também experimentou um e logo em seguida colocou em prática uma lei em que era obrigatório o uso do coração.
Depois que todos os moradores tinham um coração as coisas na Cidade de Madeira mudaram completamente. Tornou-se uma cidade conhecida por respeito e boas maneiras e todos foram muito felizes. A garota se tornou presidente da empresa que já não vendia mais segurança, mas vendia esperança. Infelizmente hoje em dia essa empresa está falida, pois as pessoas se recusam a mudar, mas a garota ainda tem esperança e ela não vai cansar até que todos os homenzinhos de madeira tenham seu próprio coração.