Certo dia eu estava em casa fazendo nada mais que nada quando o telefone toca.
- Alô! Posso falar com a Alice?
- Quem gostaria?
- Matheus
- Ah, Oi! Sou eu. Pode falar.
- Quer vir aqui em casa hoje?
NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOO
- Ah, não sei. Tenho que ver com minha mãe antes porque ela não gosta que eu saia sozinha.
- Se você quiser eu vou ai te buscar. Comprei uns jogos legais...
NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOO
- Eu ainda acho melhor falar com minha mãe... então, falo com ela e depois te ligo. Ok?
- Certo, até.
Menos de trinta minutos depois alguém me chama no portão.
- Oi Alice. Vamos?
- Vamos
Eu de fato não queria ir, mas ele já tinha perdido tempo e dinheiro vindo até em casa me buscar e não consegui dizer não.
Fomos para a casa dele e eu não tinha intenção nenhuma de ficar muito tempo. Mas houveram algumas coisas que me fizeram permanecer mais do que o necessário naquele lugar.
O primeiro foi que o combinado seria eu ir com minha tia e meu tio pela manhã quando eles fossem para a igreja, mas eu joguei videogame a noite toda e não tinha o mínimo de vontade muito menos de disposição para levantar cedo.
Então o combinado foi alterado. Eu acordava, almoçava (ou tomava café da tarde) e ia para casa de ônibus, da mesma maneira como fui parar lá. Mas um telefonema mudou o curso todo da história.
Meu irmão ligou e disse que ia ao dentista e na volta passaria lá para me pegar entorno das 19 hrs.
Não seria tão ruim passar mais algumas horas na companhia de meu primo. Ele é até que legal e não tem como me matar em algumas horas apenas, pensei. Nunca fui muito boa em suposições.
Quando eram umas 18 horas ele me disse que ia tomar banho para ir a igreja e eu fiquei no térreo jogando Guitar Hero esperando meu irmão.
Mas vejam que ironia!
Enquanto eu tocava The Killers meu primo desceu com uma espingarda e simplesmente disparou contra mim.
É, a parte calma da história acaba aqui.
Ouvi um auto ruído e senti cócegas no meu tórax, naquele ossinho do final do pescoço que tem um formato de V. Coloquei minhas mãos sobre ele que para minha surpresa ao olhá-las estavam completamente ensanguentadas. Depois apenas liguei os pontos. Sangue, barulho, arma, um buraco em mim... é, tomei um tiro! Mas não foi assim que eu reagí. Não dá pra ser uma pessoa calma e sensata quando se leva um tiro no peito.
- Animal! Você atirou em mim! Você me matou! - Berrei com todas as forças que tinha. (O que significa que não foi muito alto.)
- Não! Eu não te matei, a arma estava descarregada... Era só pra te assustar.
- Explica essa merda de buraco em mim então!
Bom então depois que a ficha caiu para ele também foi buscar um algodão e mandou eu ficar pressionando sobre a ferida. Minha aparência estava melhor que a dele. Ele estava pasmo, e aparentemente muito preocupado. Infelizmente para mim, ele não estava preocupado comigo, estava preocupado com quantos meses ficaria sem pc por matar sua prima.
Ele funciona devagar. Foi preciso berrar umas trezentas vezes pra ele perceber que a situação requeria ajuda. Me trouxe um copo de água com açúcar e me levou até a casa do meu outro tio que morava logo ao lado.
Chegando lá, algumas perguntas foram feitas antes que ele me levasse ao hospital. Ao perguntar para meu primo como aconteceu ele teve a seguinte resposta: Eu estava tentando matar um pombo e a bala bateu na parede e ricocheteou nela.
Depois no carro a caminho do hospital, expliquei ao meu tio a verdadeira história. Não por querer ferrar com ele, mas poderia me prejudicar.
Quando estávamos saindo meu irmão chegou pronto para me levar para casa. Ele foi ao hospital conosco.
Essa história toda me rendeu sete dias internada e a incapacidade de fazer exercícios físicos devido a uma artéria que saiu fragilizada.
Ainda não sei se tenho sequelas permanentes, mas estou bem, como se nada tivesse ocorrido.
Meu primo ainda me chama pra ir à casa dele, mas não se surpreende quando digo que minha mãe não deixa. Meu pai decidiu não ferrar com ele porque ele é da família e isso acabaria ferrando mais pessoas do que somente ele. Como meu primo mais velho, dono da arma e o pai deles.
Todos os médicos disseram que eu nasci de novo simplismente por ter saído viva dessa, pois onde a bala pegou poderia ter pego muitas partes prejudiciais, como o esôfago e outras partes que não sei ao certo.
Não culpo meu primo e não tenho raiva ou mágoa dele. Acredito que tenha sido sem querer, afinal, ele não é dos mais espertos, mas não vou negar que passei algumas noites planejando como feri-lo gravemente. Planos nunca postos em obra. A não ser pela bola de boliche que acidentalmente fiz que caísse no pé dele. Só doeu, nada de sangue, nada de hospital, mas foi o suficiente pra eu poder dormir tranquila.
Nos falamos normalmente até saímos juntos algumas vezes quando tem mais gente envolvida e eu volto direto para casa, mas os pais dele se sentem incrivelmente sem jeito ao meu lado. Coisa que eu já tentei contornar, sendo engraçada e repetindo várias vezes que acreditava que foi apenas um acidente.
Vivo muito bem e fiz um check-up esses dias. Não saiu o resultado ainda, mas sei que está tudo certo.
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