Liza era a governadora do Reino da Água. Durante todos os tempos de guerra o reino aquático foi o único que se manteve em pé após os ataques do fogo. Os reinos da terra e do vento tinham sido totalmente destruídos. Os responsáveis pelo ataque saquearam as cidades e tacaram fogo nelas, mataram pessoas e abusaram de suas mulheres.
O reino do fogo era o maior e o mais poderoso. Liam, seu governador, era um jovem muito belo e mal. Tão mal quanto se pode imaginar. Ele organizara ataques aos reinos mais fracos apenas por diversão. Ficara extremamente furioso ao perceber a desvantagem que tinha sobre o reino aquático. Até então ele só usara a força possuída por ele, mas se quisesse destruir o Reino da Água teria que usar de sua inteligência que era tão avançada quanto sua maldade e sua beleza.
Liza ajudara os outros dois reinos a se reconstituírem com alimentos e dinheiro. Ela era a melhor governadora desde que a original falecera. Governava com sabedoria e amava todos os habitantes de seu reino.
Era filha única, portanto, o segundo no trono era seu filho. No momento era apenas uma criança, mas Liza já o ensinava desde muito cedo os princípios para ser um bom governador. Uma criança muito inteligente e amável. Liza tinha certeza que ele seria perfeito no trono. O pai dele morreu quando era apenas um bebê em um dos muitos ataques feitos pelo Reino do Fogo. Ele estava passeando pela cidade com o pequeno Gabriel quando ouviu-se os sinos avisando que estavam sob ataque. Estavam muito longe de toda a proteção do castelo e abrigaram-se na casa de uma camponesa. Ficaram lá durante horas e quando já não se ouvia o bombardeamento nem choros, nem gritos, agradeceram a mulher e saíram. Durante o caminho de volta ao castelo encontraram-se com um guerreiro do fogo estuprando uma garota que aparentemente ainda não atingira a idade adulta. O Rei ficou tão furioso que colocou Gabriel sentado no chão e atacou o criminoso sem dó. Depois de uma luta intensa de punhos praticamente ganha, o Rei resolveu matá-lo de uma maneira mais cruel e enquanto transformava água em uma espada de gelo foi surpreendido por uma bola de fogo que atravessou seu peito e arremessou seu coração em chamas a três metros de distância. O criminoso já estava de saída quando ouviu o choro do pequeno Gabriel. Cogitou em matá-lo e o mataria se soubesse que aquele é o herdeiro do trono, mas ignoravam essa informação e tampouco sabia que aquele que acabara de matar era o Rei. Ao invés disso apenas desenhou com seus dedos flamejantes na pele do bebê o escudo do Reino do Fogo. Deixou a criança onde a encontrara e foi embora. Três horas mais tarde a rua ainda estava deserta, mas um morador ouviu um chorinho e foi socorrer a criança. Suas costas sangravam abundantemente e ele estava sujo com o sangue do próprio pai, mas mesmo assim o morador o reconheceu. Reconheceu também que o corpo estirado no chão com um enorme buraco era o marido da Rainha Liza. Levou a criança imediatamente ao castelo e deu instruções de como chegar ao corpo. A Rainha Liza ficou muito furiosa e triste ao mesmo tempo. Prometeu a si mesma que destruiria Liam o mais breve possível. Da maneira mais cruel e humilhante possível.
Conforme o tempo passou Liza planejou vários ataques contra Liam. E Liam por várias vezes fez o mesmo. O ódio que crescera entre os dois governadores se tornou absurdo. Durante um ataque ao reino do fogo Liza esteve tão perto de matar Liam que parecia até um sonho.
Apenas um dia antes do ataque, Liza avisou aos seus guerreiros que atacariam ao Reino do Fogo na manhã do dia seguinte, como sempre que combinavam o ataque antecipadamente a informação vazava e Liam já os esperava com toda sua tropa e sempre acabava em empate. Este foi o momento em que chegaram mais próximos da vitória. Quando chegaram eles estavam despreparados. A tropa toda estava em bares ou em casa e havia poucos sentinelas que foram destroçados antes que pudessem disparar o alarme. Invadiram a cidade e mataram cada um que cruzassem seus caminhos. Liza estava à frente da invasão. Ela era tão boa guerreira quanto governadora, mas só dava as ordens. Não gostava de matar inocentes, mas deu ordens explicitas que ela mesma mataria Liam. Ela queria que ele visse o ódio em seus olhos. Queria vê-lo sentir medo e queria acima de tudo ter o sangue dele em suas mãos. Só isso tornaria possível que dormisse em paz novamente.
Os guerreiros aquáticos se dividiram em três partes: Os que ficariam de sentinela pela cidade e matariam todos que quisessem se opor a eles; Liza ordenou que só matassem quem ameaçasse o bem andar do plano. Os que ficariam de sentinela em frente a todas as entradas do castelo; mataram os guerreiros originais dali e vestiram suas vestes para que não fossem reconhecidos como inimigos. E os que participariam da invasão ao castelo. A informação que eles estavam no castelo já tinha sido passada ao general responsável pela tropa de fogo quando Liza chegou ao quarto de Liam. A informação foi passada por um vendedor por uma passagem subterrânea da qual os guerreiros da água não sabiam a existência.
— Estou atrapalhando, Liam? — disse a Rainha com um sorriso que fez Liam estremecer.
Liam estava sentado em sua cama lendo um romance antigo escrito por uma garota do Reino do Vento que roubara enquanto saqueara suas terras apenas para livrar-se do tédio.
— Olá, minha nobre Rainha. Se aceita um conselho meu lhe digo: Nunca roubes livros do Reino do Vento. Esses caras são tão inúteis que não sabem nem escrever um livro com um pouco de ação, — disse balançando o livro e jogando-o pela janela do quarto— mas devo admitir que estou muito surpreso em vê-la. A quê devo a honra?
— Eu ainda não o matei.
— Ficaria muito grato em lutar com você.
— Ah, vamos parar com toda essa cordialidade. Você sabe tão bem quanto eu que sem a ajuda da sua tropinha não é páreo para mim.
Das palmas de Liza saíram estacas pontudas de gelo. Ela correu em direção e ele e o acertou na maçã do rosto. Fez um corte raso e Liam pode sentir as pequenas gotas de sangue escorrer. Liam sorriu.
— Está brincando? Gelo? Você tem a incrível chance de me atacar sozinha e me ataca com gelo? Decepcionou-me. — Liam encostou uma de suas mãos na parede e imediatamente Liza pôde sentir a temperatura subir. Suas estacas derreteram. — Nada de gelo. Entendeu?
— Cretino.
Liam gargalhou alto e direcionou uma bola de fogo em direção à Rainha que deu um salto e se esquivou. Imediatamente começou a gargalhar
— Fogo? Você está batalhando com a Rainha do Reino de Água e me ataca com fogo? — tirou uma espada e apontou para a espada na parede do Rei. — Anda, vamos ter uma luta de igualdades então. Sem ninguém ter vantagem sobre ninguém.
Liam demonstrou que aderiu a idéia pegando a espada e com uma velocidade surpreendente atacou a Rainha e feriu a no braço.
A partir desse momento não houve mais diálogo algum. Apenas batalharam durante alguns minutos. Era uma batalha de mestres e estaria guardada para todo o sempre na história se Liza não tivesse hesitado em decepá-lo quando teve a chance. Esteve por um segundo com a espada no pescoço de Liam e ele estava desarmado. Poderia tê-lo matado naquele mesmo instante, poderia tê-lo feito pagar, mas não o fez. Nem ela mesma sabe o porquê, mas segundos depois sentiu uma dor aguda no seu peio. Liam estava com suas mãos pegando fogo pressionando-as sobre o peito de Liza. Ela por impulso deu um pulo para trás. Liam correu para saltar pela janela — o que era praticamente suicídio já que estavam no oitavo andar se não tivesse um rio logo ali em baixo. Liza ao perceber que ele estava fugindo, criou um punhal de gelo e jogou-o nas costas dele. Foi certeiro. Fincou nas costas dele e ele caiu.
Liza pensou que tinha o matado, mas estava enganada. Ela não queria dominar o reino. Só queria matá-lo e tendo o feito foi embora.
Uma semana depois um servo procurou Liza em seu aposento. Disse-lhe que precisava mostrar-lhe uma coisa. A Rainha o acompanhou e viu uma mulher segurando um bebê. Ela contou que durante a noite saiu e deixou seu bebê sozinho e quando ela voltou, alguns minutos depois, o bebê não parava de chorar. Quando já não sabia o que fazer para calar a criança resolveu dar-lhe um banho. Foi quando viu em suas costas o símbolo do escudo do fogo e uma mensagem escrita em letras pequenas: “Ainda não se livrou de mim.”.
Foi assim que a Rainha descobriu que falhara em sua missão e por várias vezes se torturara por não tê-lo feito quando teve a chance. Mas ainda tinha esperança de vingar a morte de seu marido e a dor de seu pequeno filho.
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