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terça-feira, outubro 11

OVCDP - 02 - Uma nova batalha, uma nova chance.

A verdadeira guerra começaria aqui. Liza passou a ordem ao seu comandante de tropa de confiança, Ericles, que treinasse duramente seus soldados, pois logo chegaria o dia do tudo ou nada. Vitória ou morte.
Ericles tornou-se uma peça insubstituível no Reino Aquático, apesar de mais velho era o mais forte dos soldados. Conhecido pela falta de piedade, era o que mais havia exterminado soldados do Fogo e era comandante desde os tempos em que a mãe de Liza governava. Liza cresceu vendo este homem lutar e aprendeu a confiar muito nele.
Durante longos meses todos os soldados Aquáticos treinaram duramente tornando-se visivelmente mais fortes e por conseqüência mais temíveis, inclusive Liza. Orgulhosa de seus soldados e segura de sua vitória convocou-os para uma reunião
— Amigos, chegou a hora. É hora de acabar de vez com essa batalha inacabável. É hora de acabar de vez com o medo. É hora de vencer! — Todos os presentes no reino urravam de vibração com as palavras da Rainha — Amanhã pela manhã, marcharemos em direção ao Reino do Fogo e travaremos uma batalha que ficará por toda eternidade escrita na história de nosso povo. Muitos de nós morrerão. Muitos de nós ficaremos gravemente feridos. A batalha não vai ser fácil, mas saibam que não faço isso apenas por meu falecido marido ou por meu sofrido filho. Faço isso também para livrar-lhes de toda a opressão sofrida por conta desse maldito legado de Liam. Faço isso para que possamos dormir sem sentir medo de um novo ataque. Faço isso para vingar as várias mortes de gente do nosso povo e dos povos tão amigáveis vizinhos. — Liza olhou em volta e viu apenas sorrisos. Estavam todos tão confiantes quanto ela, então retomou a fala — Por ser uma batalha árdua dou a vocês o livre arbítrio de escolher se querem ou não participar dessa missão. Amanhã, ao tocar do sino, os que estão prontos para vencer ao meu lado compareçam aqui. Obrigado, meu povo.
Dizendo suas ultimas palavras deu meia volta e direcionou-se ao seu quarto ouvindo atrás de si seu povo berrando vivas à Rainha Liza. Tomou um banho, vestiu-se e foi ver seu filho - talvez aquela fosse a ultima vez.
Gabriel estava dormindo em sua cama, mal fazia idéia do que estava para acontecer e a Rainha achou melhor contar a criança, que, mesmo sendo nova, era madura o suficiente para entender. Ela fez cócegas na barriga do garoto que acordou rindo.
— Ah, mãe. Eu estava dormindo! — disse o garoto com a voz rouca de recém acordado.
— A mamãe precisa conversar com você.
Gabriel olhou curioso para a mãe esperando que ela iniciasse.
— Bom, filho. Amanhã será um grande dia para todos nós do Reino da Água. Amanhã nós vamos batalhar com o Reino do Fogo. De uma vez por todas.
Ele continuou apenas olhando-a
— Vai ser uma batalha bem difícil e talvez muitos se machuquem, mas é necessário.
— Eu não quero que você se machuque.
— Tomarei cuidado. Você entende que a mamãe fará isso pelo povo, né?
— Entendo. Nosso dever é protegê-los acima de tudo.
— É isso ai, garotão — disse Liza bagunçando o cabelo do garoto e o abraçando em seguida.
— Eu te amo muito, meu príncipe.
— Eu também, mamãe. Se cuide.
Gabriel deu as costas para a mãe e voltou a dormir. Ele tinha consciência de que sua mãe poderia morrer no dia seguinte, mas sua fé nela era maior.
Liza levantou-se e foi para o seu quarto e após ter deitado caiu em prantos.


Liam contemplava a vista da janela que salvara sua vida alguns meses antes quando ouviu o barulho de alguém batendo na porta.
— Entre.
Entrou um mensageiro com um pergaminho em mãos.
— É uma carta anônima, vinda do Reino da Água.

Caro Liam,

Informo-lhe por motivos pessoais que a Rainha Liza planeja um ataque ao seu Reino esta manhã. Gostaria de tê-lo informado antes, mas a informação só chegou aos meus ouvidos esta noite.
Sei que és um rei convencido e orgulhoso, mas não subestime o ataque. Como havia lhe informado na carta anterior estamos treinando muito duramente e estamos mais fortes que nunca. Surpreenda a Rainha. Ela pensa que o pegará desprevenido novamente.
Quando chegar a hora certa saberá quem sou. Em troca quero ser poupado da morte e quero alguns prêmios em ouro.

Atenciosamente.

Após ler a carta Liam foi imediatamente conversar com o comandante da sua tropa mostrando-lhe a mesma e passaram horas tramando planos de batalha. Liam estava excitado e feliz, porém temia em segredo a falha.


Ao soar do sino a Rainha Liza apareceu vestida para a guerra no pátio principal do reino e surpreendeu-se com o número inesperado de soldados. De todos os 250 soldados que tinha apenas 20 resolveram não participar da batalha, por terem a idade mais elevada que os demais.
A Rainha prendeu sua espada na bainha, subiu em seu cavalo e deu sinal com as mãos para que a seguissem. Foi na frente, enquanto alguns a seguiam de perto montados em cavalos e outros mais distantes vinham a pé.
Caminharam por algumas horas e chegaram aos portões do novo continente. O coração de todos eles batiam mais rápido em sintonia e Liza virou o corpo para contemplar sua tropa. Abriu a boca para começar a desejar boa sorte a todos quando uma flecha em chamas passou rente ao seu rosto queimando uma mecha de seu cabelo. Ao olhar para frente novamente viu bem longe, alguns movimentos no horizonte e ouviu barulho de trotes.
Eles sabiam. Mas como? No momento isso não era prioridade. Virou-se novamente e disse
— Vamos lá. Boa sorte tropa.
Cavalgaram em direção ao som do trote inimigo com suas espadas, arcos e flechas e escudos de gelo impenetrável.
Visto de cima o momento do choque entre os dois reinos foi lindo, mas visto de baixo foi catastrófico. Sangue e fúria por todo o lado.
Liza teria que atravessar o mar de soldados inimigos se quisesse encontrar-se com Liam. Ela imaginava que ele teria enviado seus soldados a morte sem nem mesmo sair de seu castelo. E foi com sua espada fatal e uma força movida a ódio que Liza foi destruindo todos que bloqueavam seu caminho. Quando chegou ao miolo da guerra ouviu aquela risada familiar.
Liam.
Olhou em volta para encontrá-lo, mas tudo que via era morte. Soldados do Fogo com o mesmo traje vermelho e bronze. Foi quando avistou um caminho se abrindo entre os soldados e um homem com o traje diferente surgiu sorrindo montado em seu cavalo negro. Ela cavalgou em direção ao Senhor do Fogo que virou-se e começou a fugir. Ela foi atrás dele.

A guerra entre os soldados estava equilibrada. Cerca de cem soldados de ambos os reinos haviam falhado, mas alguém teria que vencer. Ericles continuava vivo e com poucos ferimentos acumulados nos braços. Em compensação, já havia matado vários soldados do Fogo.
Viu-se livre da multidão de soldados, mas Liam não parava de correr. Em certo ponto da perseguição Liza o perdeu de vista. Ficou furiosa e o procurava em volta. Já estava ficando escuro e seria impossível achá-lo se o cavalo de Liam parasse de relinchar.
Ela foi acompanhando o som que ia mais adiante de umas árvores. Avistou o cavalo de longe, mas Liam não estava nele. O cavalo estava amarrado a uma árvore sozinho.
Mal teve tempo de entender que era uma armadilha e Liam pulou do alto de uma arvore mirando a lâmina da espada na Rainha. Ela esquivou-se por reflexo e sacou sua espada.
Liza atacou Liam com sua espada, porém não o acertou. Ela estava pessimamente posicionada. Tal como Liam queria. Caiu direitinho em sua armadilha.
Já estava escuro e Liam se escondeu novamente entre as arvores. Liza segurou a espada em posição de ataque e ficou atenta à próxima investida do Rei. Liam surgiu logo atrás dela e cortou-lhe uma ferida profunda no braço. A Rainha tremeu, mas logo virou-se para o contra ataque. Batalharam duramente acertando-se poucas vezes em locais pouco preocupantes, mas estavam começando a ficar cansados. Nenhum deles usou seu poder durante a batalha toda. Era uma batalha de sabedorias iguais. Apenas utilizava-se espada e mente. Ambos já estavam cansados e resolveram dar um fim naquilo.
Liza foi para trás para tomar impulso e Liam fez o mesmo. Correram um em direção ao outro com suas espadas em posição.
No momento do choque Liam levantou a espada para atacar por cima e Liza foi obrigada a segurar sua espada com as duas mãos – uma no cabo e outra na lâmina- para amparar o golpe de Liam. Quando as duas espadas se encontraram o barulho de choque foi tão grande que foi perceptível a força que o Rei havia colocado nesse golpe. Liza empurrou a espada com força jogando Liam para trás. Ele deu de costas com uma árvore e caiu ruidosamente no chão. A Rainha correu em direção e ele e apertou a espada com força em seu pescoço dificultando sua respiração.
— É o fim, Liam. E já deveria ter acabado há muito tempo.
Quando ela estava prestes a decepá-lo uma flecha atravessou sua têmpora indo de um lado da cabeça ao outro. Seus dedos cederam e a espada caiu no colo de Liam, juntamente com a Rainha.
Liam ficou sem entender. Já havia aceitado a derrota. Já havia aceitado a morte. Quem o teria salvado?
Olhou ao redor e viu um homem robusto com vários ferimentos.
Não era nenhum de seus soldados.
— Quem é você?
— Olá, Rei Liam. Me chamo Ericles. Já nos conhecemos, mas de maneira indireta.

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