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sexta-feira, outubro 14

OVCDP - 05 - O fim de tudo

Há anos Gabriel não sentia aquele fogo no peito que o possuía. Há anos Gabriel não ouvia com tanta emoção aquelas palavras serem pronunciadas . Ele fitou aquela mulher que há alguns minutos estava morta e reconheceu em seu olhar a mulher que ele mais ama. Abraçou-a e caiu em prantos.
— Mãe, eu senti tanto sua falta — balbuciou em meio às lágrimas que não cessavam — Podemos vencê-lo agora. Ele está vulnerável. Podemos vencê-lo!
— Você foi um bom menino. Estou orgulhosa.

Mãe e filho permaneceram por horas conversando. Gabriel contou-lhe como tinham sido as coisas após a morte de sua governadora e como tinha sido sua vida de rei desde então. Liza dizia não lembrar-se de nenhum de seus feitos ao lado de Liam. Mentiu.
O desejo de Gabriel era exterminar Liam ao lado de sua mãe o quanto antes para vingar todo o sofrimento causado por aquele homem. Liza assentira ao plano. Breve ambos iriam ao encontro de Liam.


Liam ficou furioso quando ao acordar e procurar por sua safira não tê-la encontrado. Estava com tanta raiva que exalava fumaça e era visível a chama vermelha em seus olhos. Teria matado Alana se, esperta, não tivesse fugido durante a noite.
Quem em sã consciência teria ousado roubar tão grande homem como eu?
Talvez algum caçador de tesouros. Mas valeria à pena arriscar a vida desta maneira por uma safira? E como um simples caçador de tesouros tinha conhecimento do feitiço do espelho? Não... quem quer que tenha cometido tamanha burrice tinha um grande motivo e grande conhecimento. Não era alguém simples. Talvez... Talvez um filho atordoado. Ponderou Liam.

Aquele dia acabara em uma bela noite de lua crescente. Talvez para indicar que aquilo tudo estava apenas começando.

Na manhã do dia seguinte Liza e Gabriel conversaram sobre a investida, mas Liza excluiu todas as chances de realizarem uma caçada. Ela contou ao filho o quão esperto e orgulhoso era o rei e que breve viria atrás de Gabriel. Era uma questão de tempo. Deveriam estar preparados para o ataque, pois mesmo sem ter a alma de Liza para ajudá-lo era uma ameaça.
Gabriel não entendia como poderiam ficar somente esperando depois de tudo que havia passado, depois de tantos anos esperando, mas resolveu confiar em sua mãe e ela estava certa.
Três dias mais tarde o mensageiro entrou sem bater no quarto de Gabriel, visivelmente cansado.
— Meu rei, ele chegou. Disseram-me que ele está vindo ao castelo e já matou cinco inocentes pelo caminho.
Gabriel correu para avisar a mãe e ambos esperaram no pátio central do reino junto com seu grande exército de soldados.
De longe viram um homem furioso caminhando em direção deles e disparando faíscas por todo canto. A cada passo do visitante o coração de Gabriel batia mais forte. Imaginava que sua mãe deveria estar muito mais abalada, mas, ao olhar pra ela viu uma mulher determinada e com o olhar focado. Sentia orgulho de sua mãe. Depois de tudo que passou, tudo que lutou, tudo que viveu – e deixou de viver – ainda estava lá. Firme.
Liam chegou à outra ponta do pátio e logo seus olhos encontraram-se com Liza e de pronto sorriu.
Liza começou a andar em direção a Liam e ao chegar a uma distância tocável dele ajoelhou-se.
— Bom vê-lo novamente, meu senhor.
Liam segurou em suas mãos e a ajudou a levantar, pois via lealdade em seus olhos. Liza ficou parada ao lado de seu verdadeiro rei.

Mesmo estando livre novamente, todos os sentimentos humanos vem da alma.  Sua alma passou a ser de Liam no momento em que ele matou Ericles. A pedra, na verdade, é apenas uma maneira de manter a alma em algum lugar diferente de um corpo humano, que a prende torna seus poderes limitados. Ele a corrompeu. Ele a ensinou o mal e Liza gostara daquele mundo. Gostava de ser temida e respeitava, e, gostava acima de tudo, do poder que havia ganhado. Um poder que uma rainha boazinha jamais teria.

Gabriel não pôde acreditar no que seus olhos viam.

— Seja bem-vinda de volta — disse Liam sorrindo para sua serva, certo de que já ganhara. — Insolente. — disse agora olhando para Gabriel — Como pôde entrar em meus aposentos e roubar o que é meu? Tão burro de achar que sua mãe voltaria a ser a mesma só por tê-la colocado nesse corpo podre. E o que ganhou com isso? Só mais uma ferida e meu ódio por ti.
— Você pode ter pode ter corrompido a alma de minha mãe, mas eu tenho um exército inteiro ao meu lado. Você não tem chances.
— Já venci exércitos ao lado de tua mãe antes. Não será feito complicado algum executá-lo novamente.
— Mas agora ela é apenas um corpo podre — disse Gabriel reproduzindo as palavras do inimigo e fazendo sinal para que atacassem.

A tropa inteira correu em direção a dois simples humanos. Liza ergueu suas mãos para o alto e segundos depois estacas de gelo caíram dos céus saído das nuvens. As estacas de gelo cravaram em muitos reduzindo à metade o número de soldados sacou sua espada – que havia levado com o pretexto de matar Liam – e correu em meio ao povo matando um por um. Liam fez o mesmo e em poucos minutos todos estavam mortos. Faltava apenas Gabriel.
Liam o chamou com o olhar e Gabriel consentiu correndo para ele com fúria. Tentou uma investida direta, mas falhou quando Liam desviou-se do ataque e bateu com o cabo da espada em sua nuca. Gabriel caiu no chão, mas logo ergueu-se novamente. Segurando a espada firme conseguiu encravá-la uma vez no ombro de Liam e logo retirou-a para atacar novamente. Liam agachou rápido e deu uma rasteira certeira no garoto que novamente foi ao chão.
Liza assistia a tudo de inicio sem emoção alguma, mas ao ver Liam com a espada posicionada na barriga de Gabriel, prestes a matá-lo algo a incomodou. Prestes a morrer estava aquele garoto que um dia jurou proteger. Que um dia jurou amar. Que se orgulhava e tinha certeza que seria um bom rapaz. Estava morrendo agora e parte disso era sua culpa.
Com um impulso, Liza correu e enfiou a espada nas costas de Liam e continuou enfiando até que atravessasse seu corpo. Liam teve tempo de olhar para trás e ver a traição antes de cair morto no chão.
Jorrava sangue de todas as partes de Liam e logo o corpo de Liza começou a fazer o mesmo. Sentira a dor da traição em sua carne, mas ver seu menino salvo lhe deu forças para viver este momento com dignidade. Tentou um pedido de desculpas, mas antes que conseguisse abrir a boca já estava morta. Aos pés de Gabriel se encontravam duas pessoas de alta importância em sua vida. A mais odiada junto com a mais amada.
Gabriel jamais esqueceu aquela visão.

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